Inicio » Sem categoria » Reflexões sobre os 45 anos de independência

Reflexões sobre os 45 anos de independência

  • Francisco Inacio
  • Publicado domingo, 13 de dezembro de 2020

A independência significa muito mais do que uma bandeira, do que as notas musicais do nosso hino nacional e as insígnias oficiais do Estado.

A independência é a expressão da solidariedade, do espírito patriótico, e do amor pela paz que habitou a consciência colectiva e individual dos nossos antepassados, com o desejo de que pudéssemos  viver em harmonia e de que construíssemos um futuro com valores e ideais comuns, apesar da diversidade. É a expressão de um presente e de um futuro livres para decidirmos o melhor para os nossos filhos.

O país tem um grande reservatório de talento jovem e vai continuar a desfrutar deste “bónus” nas próximas décadas,  se investimentos forem feitos para que os jovens alcancem o seu pleno potencial. A nova geração tem o honroso desafio de cultivar a liberdade de pensamento e de expressão, sem os complexos do passado nem os traumas das guerras, de tornar ainda mais real e efectiva a democratização e a massificação da educação, que deve ser encarada como uma responsabilidade partilhada entre o Estado e o cidadão,  para que  Angola possa evoluir para um sistema político e social que quebre as amarras e liberte o génio criativo e inovador que existe em cada um de nós.

Relevar o desafio de  construir uma economia moderna e pujante é possivel desde que não tenhamos medo e que abandonemos a “crença limitante” de que falta de recursos financeiros seja o nosso principal impedimento. É igualmente necessário que se retire o foco, que erradamente tem sido colocado, no elevado nível de endividamento público, e é crucial que se considere as ideias como principais fontes de criação de valor acrescentado, sociais e geradores de riqueza, e que nos empenhemos na criação das condições para o crescimento económico como principal via para sair da crise económica e social.

Ao proclamar-se a independência em 1975, distante estávamos da realidade que hoje vivemos. Actualmente o crescimento da economia ainda está refém da frágil inclusão social, e do fraco nível de investimento individual e colectivo no capital humano, bem como no processo de democratização de ideias que inibem a expressão da nossa rica pluralidade no processo de construção de uma economia de mercado.

O desafio de tornar a agricultura a base do desenvolvimento tem se revelado um dos maiores obstáculos para Angola independente, coibindo a conquista da auto-suficiência alimentar. No entanto, fazer crescer a economia por via do desenvolvimento da agro-indústria sustentável, e de toda a indústria de apoio a este sector, é determinante para a preservação da nossa independência. Não podemos considerarmo-nos inteiramente independentes enquanto não conquistarmos  independência alimentar. É uma questão de soberania. 

O desafio da inclusão social está intrinsecamente ligado a alteração da abordagem, que hoje centra-se essencialmente na persecução de um modelo macroeconómico que pouca ou limitada atenção dispensa aos aspectos microeconómicos.

Melhorar os índices de desenvolvimento humano, passa pela promoção dos princípios que permitam a  Angola tirar proveito do dividendo demográfico que possuí, tornando possível que o seu próprio capital humano seja capaz de tornar os seus projectos em realidade.

O desafio do financiamento deve ser visto do ponto de vista doméstico, distanciado-se da visão do financiamento externo, pois como refere o economista Hernando De Soto, “ A legalização da propriedade não pode ser encarada como obra de caridade para os pobres. A criação de um mercado estruturado que responsabiliza os detentores de propriedade e que atribui títulos de propriedade, podem servir de garantia para alavancar financiamento, permitindo a expansão do mercado, encorajando o respeito da lei e da ordem, e gerar riqueza para a sociedade.”

Nesta linha de pensamento, os jovens da geração pós independência têm que exigir de si próprios uma determinação na conquista de uma educação rigorosa, com forte pendor técnico e profissional.

O Estado por sua vez tem o desafio de promover a inclusão social, com particular atenção à redução do volume das despesas com os assuntos económicos e sociais que nos últimos anos diminuiu mais de 60% do seu valor desde 2017.

A independência, a liberdade, a democracia e a paz são valores e princípios imutáveis, que não pertencem a uma geração, mas que têm que ser preservados para que possam tornar-se de facto  legados transmitidos de  geração em geração, sempre com o compromisso de os aperfeiçoarmos ao longo da história da nossa nação.

Texto: Ciel Cristôvao.



Deixe o seu comentário!