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Meu caro e querido jovem angolano

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  • Publicado domingo, 27 de dezembro de 2020

Saúdo-te com a paz de Deus, neste final do ano de 2020.

É uma bênção para o nosso país, o facto de a maioria da população ser jovem, o que nos garante a sobrevivência da nação no médio e no longo prazo, pois muitos países tiveram de importar jovens de outras latitudes para assegurarem a continuidade das suas nações, mas certamente não serão tão genuínas como nós somos. A ti, jovem, devemos este feito.

Esta mensagem não é para amedrontá-lo ou escandalizá-lo. Pelo contrário, como sempre faço, é para incentivá-lo a ver Angola com novos olhos. E faço-o da maneira seguinte:

Antes de tudo, não deposites a tua confiança e esperança no Estado, nos partidos políticos, ou nas instituições religiosas. Nenhum deles tem algo para te oferecer. O Estado tira do que é teu, a título de impostos. E é obrigatório, não é facultativo. Mas a sua função é criar condições para que tu possas exprimir a tua individualidade, exercer a tua liberdade e criar, desenvolver e proteger a tua propriedade. Trabalha para o colectivo e não para o individual. Os partidos políticos também nada podem dar, senão sonhos, que na maior parte das vezes são impossíveis de concretizar. Se és membro dum partido político, terás de pagar as tuas quotas e outras contribuições, mas nada obterás em troca. As instituições religiosas também pouco têm a oferecer-te, a não ser promessas. No entanto, terás de dar as ofertas, daquilo que é teu.

Por isso lhe digo: Confie em Deus e em ti próprio, com as capacidades e habilidades que Deus te concedeu para cumprires o teu propósito. Podes fazer parte de qualquer das instituições acima referidas, mas saiba que terás de dar e não receber nada em troca. Esta é a realidade. A escolha é sua.

Estamos todos a viver, ao mesmo tempo, uma época de mudanças e uma mudança de época. Uma época de mudanças porque há necessidade de uma alteração na nossa maneira de pensar e de agir, pois aquilo que pretendes alcançar depende de uma nova abordagem. Uma mudança de época, porque os instrumentos e ferramentas usadas no passado já não servem para aquilo que são as tuas aspirações e expectativas futuras.

O capitalismo como sistema de desenvolvimento económico e social, baseado no individualismo, no egoísmo e na ganância, gerador de desigualdades sociais, faliu e, com ele, o sistema de produção, baseado na exploração desenfreada e irresponsável dos recursos do mundo, bem como o modelo de consumo irracional que produz desperdícios. Foi por causa desta situação que os líderes mundiais comprometeram-se, em Setembro de 2015, a mudar este estado de coisas, ao aprovarem a agenda de desenvolvimento 2030 das Nações Unidas, estabelecendo 17 objectivos e 179 metas a atingir até 2030.

A nova abordagem que o mundo apresenta tem a ver com os direitos humanos, a igualdade entre os homens e a protecção ambiental. O direito à alimentação, à saúde, a uma educação de qualidade, a uma vida de qualidade, a um trabalho remunerador, adicionado a um uso racional e responsável dos recursos que Deus colocou à disposição dos homens, passaram a constituir o foco no qual as novas gerações se devem concentrar.

Caro jovem,

Nesta nova abordagem conceptual, é preciso mudar aquilo em que acredita, mudar a forma como vê o mundo e a maneira como se vê inserido nesse mesmo mundo, adoptar novos hábitos e mudar a maneira de pensar e de fazer as coisas. Neste sentido, o capital para o desenvolvimento já não é o dinheiro como tal, mas tu próprio. Ou seja, tu és o teu próprio dinheiro, tu és o teu capital. Por isso, não exijas emprego ao Estado, porque ele não o pode dar, mesmo quando algum político o tenha prometido. Nenhum político pode dar emprego, porquanto ele mesmo também é empregado. Não produz rendimentos, porque aufere apenas uma renda. Exige, isso sim, facilidades de financiamento para que te possas desenvolver autonomamente. Exige que o Estado faça uma melhor gestão dos recursos tirados da sociedade, para que as condições gerais para o teu desenvolvimento possam efectivamente ser criadas. E não tenhas vergonha de começar na garagem da casa dos teus pais, ou numa tenda, num determinado terreno. Tu és criativo. Pensa em alguma coisa e vai atrás. Tu és o único responsável por ti mesmo. Não te iludas nem te deixes enganar.

Meu caro jovem

Neste momento de viragem da história da humanidade, Angola precisa de jovens comprometidos. Como responsável pela criação, educação e desenvolvimento de uma nova geração, precisas de um espírito de compromisso, um espírito de serviço. Neste sentido, o primeiro e maior compromisso que orientará a tua vida futura é o casamento. Não existe, entre os seres humanos, maior compromisso do que o casamento. Ele requer fidelidade, requer lealdade, requer solidariedade, requer compreensão, requer paciência, requer perdão, requer sacrifício, requer amor.

Se fores capaz de te comprometeres desta maneira, então tens meio caminho andado para o sucesso que pretendes. Basta-te juntar ao compromisso do casamento, o compromisso com o princípio de Jetro (não encontrarás nos manuais), para a liderança, que diz “aquele que pretende liderar deve ser uma pessoa capaz, digna de confiança, temente a Deus e inimiga de ganhos ilícitos”.

Em qualquer local em que estiver, e em tudo o que pretender empreender, pense em servir com esses compromissos.

Cristo deve ser o teu espelho. Com 30 anos de idade e durante 3 anos mudou a forma de ver o mundo e as suas acções e palavras mudaram o mundo, de tal maneira que as nossas próprias idades são contadas tendo como marco o seu nascimento. Ele alimentou multidões, curou pessoas, aconselhou muita gente e morreu por alguém que ele jamais conheceu. Viveu e morreu servindo. Isto mostra que é o jovem que cuida da geração mais velha, é o jovem que educa a geração mais nova. Para isso é preciso compromisso.

E não é necessário que alguém te atribua esse poder. Ele é teu, naturalmente, enquanto estás nessa fase da vida. Se perderes tempo, dar-te-ás conta que já estás na idade mais velha e a geração que tu devias educar, é a que deverá cuidar-te. Esta é a realidade e a dinâmica da vida.

Muita coisa mais poderia dizer-te, mas não quero abusar.

Como disse antes, não escrevi estas palavras para te amedrontar ou escandalizar, mas para que aprendas a questionar tudo o que vês, tudo o que sentes, tudo o tens como certo ou verdadeiro.

Desejo o melhor para ti no ano que se aproxima.

Termino, deixando-te como reflexão, um conto da tradição africana:

Algures numa savana africana, acorda pela manhã um leão, que tem de correr mais do que a mais veloz das gazelas, se não quiser morrer de fome; no mesmo instante, acorda uma gazela, que tem de correr mais do que o mais rápido leão se não quiser acabar devorada. Quer sejas leão ou gazela, assim que acordares, tens de correr, correr, correr e correr!”.

Te amo, meu jovem angolano.

Texto: Doutor Kiluanji



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