Inicio » Opinião » É um mal conhecer o “bem e o mal”?

É um mal conhecer o “bem e o mal”?

  • Sidrak Alberto Dala Sidrak Alberto Dala
  • 0

  • Publicado quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Muito se discute da origem do mal, sob as lentes da narrativa judaica cristã. Seria Deus e Satanás “figuras” mitológicas como sugerem alguns autores conceituados? Ou como dizia Sigmund Freud: “Deus é apenas a imagem magnifica do pai” (s/d Obras Completas vol. XI Cit. Mervel Rosa, Psicologia e Religião, 1979, p. 58). Será isso verdade? Bom, deixo estas questões para uma outra altura.

Quando desfolhamos as páginas da bíblia, um dos textos de génesis chama a nossa atenção. Em Génesis 1:31, lemos “E viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era MUITO BOM […]”. Á luz deste texto podemos raciocinar o seguinte:

■ Se tudo que Deus fez era MUITO BOM. Então o fruto do conhecimento do bem e do mal também era MUITO BOM. Se o fruto não era bom, então nem tudo que Deus fez era MUITO BOM, uma vez que o fruto que Deus proibiu que se comesse não era bom.

Ou tudo que Deus fez era muito bom, ou não era muito bom. Ora, se a árvore do conhecimento do bem e do mal era muito boa, por que razão Deus privou Adão e Eva de degostarem das delícias daquela árvore? Repare que a árvore é chamada de “árvore do conhecimento do bem e do mal”. Eu pergunto: estaria Deus a privar o homem de conhecer o “bem e o mal”? Ter conhecimento de que se está nu, será que é um mal em si mesmo?

  • Suponha que durante um jantar em família, você descobre que tem uma bomba por baixo da mesa com menos de 5 minutos para explodir. O que farias a seguir, enquanto chefe de família? Será que esse conhecimento sobre o mal (a bomba relógio preste a explodir) é um mal em si mesmo? Penso que não. Aliás, este conhecimento sobre o mal pode salvar a vida da sua família. Seria “este conhecimento” que Deus proibiu que o homem tivesse? O que aconteceria se não tivesses este conhecimento da bomba relógio? Como pode um Deus de amor privar-nos de tal conhecimento? Ou será que ter conhecimento de que o fogo queima é um mal? Osho, um proeminente filósofo e espiritualista indiano, disse em certa altura que “Satanás era um grande revolucionário e humanista”. Um outro indiano, Rajneesh, filósofo e líder da seita Rejneeshismo, disse que ” […] a Desobediência não é pecado; é um aspecto do crescimento” (O Império das Seitas, Walter Martin,1992, p. 46). Rajneesh, ainda acrescenta que “O argumento do Diabo para Eva foi de que Deus quer que sejamos ignorantes […] Essa não é a atitude de um pai amoroso […] Não é pecado ter o conhecimento. Eu os aconselho a comerem da árvore do conhecimento”. De acordo com o movimento religioso e ocultista Rosa Cruz e a maçonaria, alegam que Lúcifer (Satanás) foi punido por dar o conhecimento ao homem (ensinar o segredo de gerar vida). Isso me parece ser, logicamente, contraditório à luz da bíblia, já que a ordem de se multiplicar e encher a terra foi promulgada antes de comerem o fruto proibido (Génesis 1:28). Assim, Deus não podia puni-los por aquilo que Ele mesmo ordenou que se fizesse (o que seria confuso). Alguns ainda sustentam que o fruto proibido era a “relação sexual”. Bom, a menos que os defensores desta visão demonstrem que existia uma outra forma de Adão e Eva se multiplicarem no jardim, sem a relação sexual, penso esta abordagem muito ousada e simplista.

Ora, se Deus privou o homem de chegar ao conhecimento por meio de punição, então Osho e Rajneesh tinham razão – Deus foi injusto e Satanás mostrou-se mais justo que Deus. Parece que o aclamado Deus de amor mostra, claramente, a sua visão arbitrária e totalitária. Aliás, o próprio Deus reconheceu que o homem tinha se tornado como um deles (Deus), conhecendo o bem e o mal “Génesis 3:22”. O reconhecimento de Deus, parece validar o argumento de Satanás  e a visão dos indianos da genialidade de Lúcifer, em elevar o homem a ser “igual a Deus”). Repare que uma das características das seitas e dos governos totalitários está, exactamente, em controlar a informar e o conhecimento da maioria. Seria Deus semelhante aos governos totalitários e arbitrários?

Será que a aquisição do conhecimento “frustraria” os planos de Deus, de nos “emburrecer” com a falta do conhecimento do bem e do mal? Se não, por que razão promulgar a lei de não comer do fruto proibido sob pena de morrer por desacato a autoridade? Em alguns países a pena de morte é aplicável apenas para os crimes considerados hediondos, ou que mexem com a moral pública. No governo de Deus, comer do fruto proibido equivale a própria morte. Por quê? Qual é a razão da punição e das recompensas, senão a de controlar o comportamento humano.

Esta visão ateísta questiona o amor de Deus. Como pode um Deus de amor pronunciar uma sentença tão pesada pelo facto do homem comer uma “simples” fruta? Se o acto de comer o fruto proibido produziria conhecimento, por que um Deus que se preza pelo crescimento do homem, privou-o de tal privilégio?

o bem e o mal são como duas faces da mesma moeda

■  Estas questões levantadas por alguns ateus são legítimas.

Muitas vezes aqueles que se denominam ateus questionam o amor de Deus, mas ignoram outros atributos de Deus como “a justiça”. Um pai que diz que ama o seu filho não pode puni-lo quando este falhar ou desobedecer a autoridade do pai? O facto de um pai punir o filho por desacato as suas normas, isso significa que o pai deixou de amar o filho ou que nunca lhe amou? Pare um pouco e imagina um pai que se “gaba” em frente de seu filho e aos quatro cantos da terra que – o ama. Agora pense que o pai disse a seu filho que o puniria se não respeitasse as suas normas. No dia seguinte, o filho quebra as normas e o pai olha, se zanga e não cumpre com a sua palavra. Três dias se passam, o filho volta a cometer, e o pai porque “ama” o filho, fica irritado, mas não puni o filho. O que achas que passará na cabeça do filho quando aparecer uma outra oportunidade de quebrar as regras? Em plena consciência acha que esta atitude do pai demonstra que ama o filho? (Bom, o pai pode até amar, mas o seu comportamento é irresponsável). Deixar de cumprir com a palavra (neste caso) é um trampolim que compromete o desenvolvimento normal do filho. Assim, pais que não agem de forma coerente acabam, formando um filho propenso a exibir as mesmas atitudes. Aliás, a sociedade não olha com “bons olhos” as pessoas incoerentes. Por outro lado, se o mundo antes do homem comer do fruto probido era MUITO BOM, como ficou depois de comer do fruto proibido? Claro, mortes, roubos, assassinatos etc. Se o conhecimento do bem e do mal é tão bom, por que os homens que possuem este “bendito tesouro” infringem aos outros as mais graves torturas? Ou será que os roubos, assassinatos, torturas e toda a sorte de mal, é um bem disfarçado? Será que tudo isso é MUITO BOM ou MUITÍSSIMO BOM? Acredito que não.

■ O conhecimento do mal não é um mal em si mesmo. Agora, o que fazemos com o conhecimento que temos sobre (ou do) mal, é que pode ser um mal. Repare que ninguém é bom porque conhece o bem. Ter conhecimento sobre a bondade não faz de ninguém bom. A mesma analogia é válida para o conhecimento do mal. Se assim não fosse todos nós seriamos “uns santos”, já que conhecemos, geralmente, aquilo que é bom. Então por que será que fazemos tudo ao contrário?

As vezes nós não temos estrutura (não estamos preparados) para suportar a verdade. Daí que algumas pessoas apanham ataque, outras ficam paralisadas pelo impacto e outras, morrendo. O problema não está na verdade em si (afinal a verdade não é um problema), mas a maneira como a pessoa chega ao conhecimento desta verdade é que pode ser um problema.

■ Repito, o conhecimento do bem e do mal, não é um mal em si mesmo, mas o “meio” usado para chegar ao “conhecimento” (comer do fruto) é que era um mal. A árvore em si mesmo não tinha poder para dar ao homem conhecimento algum. O conhecimento estava atrelada a sentença em si, e não na árvore. Se a sentença fosse “não pisar em algum lugar do rio”, ainda que eles comesem todo o fruto que ficava no meio do jardim, não conheceriam o bem e o mal.

■ Desobedecer não é necessariamente ruim. A questão que se impõe é: o que é que desobedecemos? E a quem desobedemos?

 

 



Deixe o seu comentário!