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A imprensa e a sua crise

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  • Publicado sábado, 17 de outubro de 2020

Vi o Cartoon do Piçarra, no qual apresenta diferentes atitudes de profissionais como advogados, médicos e jornalistas. E há uma crítica implícita a estes últimos (e com razão) por nunca serem capazes de defenderem a sua dignidade profissional quando atacada (minha interpretação).  Em fevereiro de 2019 escrevi para o Jornal de Angola o texto que se segue, com título de “Imprensa e a sua credibilidade”.

Fiz ligeiras alterações mais de forma do que de conteúdo. Talvez haja nele algumas respostas para o Cartoon.

Quando nos propusemos a discutir a credibilidade da imprensa ou a sua crise, tal como o debate despoletado pela Rádio MFM, impõe-se que se convoque a história geral do país, em particular da imprensa, e a Sociologia, em concreto de Consumo. A crise da credibilidade que a imprensa enfrenta nos dias que correm é resultado de um concurso de factores.

De 1975 a 1991, o país conheceu um jornalismo militante, filho do sistema político então adoptado pelo partido-Estado. Os jornalistas assumiam-se militantes, não tendo qualquer receio de utilizar o pronome “nosso” em matérias noticiosas. Era um jornalismo mais próximo da propaganda do que do jornalismo como tal. A excepção encontrava-se nas secções do Desporto e da Cultura.

Nesse período, o cidadão nacional residente nas zonas controlados pelo Governo estava confinado a quatro órgãos de comunicação social (TPA, RNA, Jornal de Angola e a ANGOP), todos controlados pelo Departamento de Informação e Propaganda do MPLA, o mítico DIP. Essa geração de jornalistas que assegurava os órgãos de comunicação social era, no mínimo instruída, sabia tratar o Português e apresentava uma cultura geral acentuada.

Em 1991, caiu o monopartidarismo e abriu-se o caminho para o Estado de Direito e a democracia pluripartidária. Consagrou-se, pela primeira vez, a Liberdade de Imprensa (artigo 35º, nºs 1 e 2, da Lei Constitucional de 1991 da República de Angola). O Estado, na sua acepção de poder político, viu escapar o monopólio da verdade, que tão renhidamente controlava.

Consciente do papel da imprensa para a sua sobrevivência, o MPLA lançou mãos a iniciativas que lhe permitiam ter órgãos de comunicação social formalmente privados, mas materialmente longamanus dos órgãos públicos. Criou, segundo Sebastião Coelho, em “História e Estória da Informação”, 1997, editado pela Executive Center, quatro rádios (LAC, em Luanda; Rádio Comercial, em Cabinda, Rádio Morena, em Benguela, e 2000 na Huíla), assim como o primeiro jornal privado saiu do ventre do Jornal de Angola, de seu nome Correio da Semana. O título partilhou aliás o mesmo telefone, pois não tinha o seu próprio. E o primeiro director, Manuel Dionísio, acumulava esta função com a de jornalista do Jornal de Angola.

Como se de uma mancha de óleo num pano se tratasse, a liberdade de imprensa era difícil de conter e logo nos primeiros cinco anos da década de 90 um número considerável de jornalistas desfez-se das redacções dos órgãos públicos e abraçou projectos editoriais próprios, sendo os mais emblemáticos o Imparcial Fax, Comércio Actualidade, Folha 8, Angolense, Agora, Semanário Angolense e A Capital.

Essa geração de jornalistas, que chega às redacções maioritariamente na década de 80, era menos culta, se comparada à primeira, porém mais ousada e, carrega, por isso mesmo, a tocha de pioneiros da Liberdade de Imprensa. Uma curiosidade que não pode ser ignorada é que muitos desses jornalistas tinham passagens pelas secções do Desporto e Cultura, logo, áreas que sempre exercitaram um jornalismo mais aberto.

Se tivéssemos de enquadrar essas duas gerações de jornalistas numa das correntes que animou o Ocidente, entre os séculos XIV a XIX, diríamos que eram Iluministas. Tinham no horizonte o bem-comum. Espiritualmente eram patriotas.

Incapaz de enfrentar esses jornalistas e os respectivos títulos que iam surgindo, o poder político mergulhou em força neste sector, criando jornais privados dirigidos por jornalistas a si fiéis ou professores de jornalismo, cursados no Leste Europeu e em Cuba. São esses que tinham a missão de lançar confusão na classe, confundir as pessoas, o que resultou num menosprezo dos jornalistas que trabalhavam para órgãos não estatais. O epicentro deste desprezo foi a consagração da bipartição: jornalista do privado e do público, suscitando, entre eles, achincalhamentos públicos. O Jornal de Angola testemunhou e foi palco de alguns desses momentos infelizes do jornalismo angolano.

Esses jornalistas que se dedicavam a fazer “terrorismo de antena”, como qualificou um dia um ministro da Comunicação Social, nunca foram tidos nem achados para coberturas das actividades governamentais, em particular as sessões do Conselho de Ministros, órgão colegial do Governo, à época, ou as actividades presidenciais.

A administração pública, directa e indirecta, estava desse modo tacitamente instruída a criar todas as dificuldades e mais algumas para os jornalistas- privados. Nessa altura, a Rádio Ecclésia já tinha engrossado a lista. A Lei nº11/02, Lei de Acesso aos Documentos Administrativos, que visava facilitar o acesso à informação, era um “book- in-law”.

Em finais da década de 2000, alguns jornalistas de referência, detentores de títulos, perderam a cabeça, abandonaram o iluminismo e vestiram a pele doutra corrente: o “materialismo”. Essa corrente traduzia-se em chantagens e alianças com governantes para os proteger ou ajudá-los a afastar possíveis concorrentes. Para uns, era a luta pela sobrevivência; já outros tinham pura e simplesmente mergulhados na luxúria.

No sector público, os jornalistas passaram a disputar os cargos de adidos de imprensa como se de ouro se tratasse. O nome do país pouco importava. Só os que gozavam de enorme influência familiar ou de outra natureza é que escolhiam os países.

Em simultâneo, as redacções dos órgãos públicos iam recebendo uma legião de pessoas, sem quaisquer requisitos para jornalistas, mas que achavam a profissão bonita. Os tios, ministros, directores, assessores presidenciais e outros, enchiam as redacções dessas pessoas menos preparadas, o que facilmente redundaria no actual quadro.

Portanto, a crise de credibilidade que a imprensa enfrenta resulta da interferência política, da ausência dos mecanismos de auto-regulação funcionais (como Comissão e Carteira e Ética e um Código Deontológico, aprovados apenas em Outubro de 2019, vinte e sete anos depois da consagração formal desses mecanismos de auto-regulação), por falta de vontade política, das dificuldades financeiras dos órgãos de comunicação social (por falta da regulamentação da Lei de Imprensa, a primeira, a segunda e a última), de uma política de formação de quadros e, em última análise, de um mercado sedento de consumir uma informação plural, que raras vezes encontra nos órgãos públicos, por isso disponível para consumir tudo o que seja diferente, ainda que careça de qualidade.

Texto: Teixeira Cândido, secretário-geral do Sindicato dos Jornalistas Angolanos



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